(depoimento de um guerrilheiro)
´´... O exército descobriu por
duas vias: um por uma velhinha que informou o prefeito, que por sua vez recebeu
a informação de um de seus filhos que estava recolhendo batatas á luz de um
lampião e viu movimento. Tudo isso permitiu que o exército nos encontrasse
concretamente naquele pequeno vale, que soubesse que estávamos nos movendo
naquele ponto especifico. Naquela noite, nós paramos ás 2:30, perdemos duas
horas de avanço por toda uma série de condição dos doentes, pelas condições
deploráveis em que se encontrava o China, que nos obrigava parar a cada 5
minutos, seus óculos caíam: aqueles óculos já tinha perdido uma lente e o China
não via praticamente nada. Ao amanhecer, mais ou menos ás 5 e meia, Che vai até
o lugar onde eu me encontro e pergunta qual minha situação. Noite que deseja
algo de mim. Disse que me encontrava perfeitamente bem. Então ele me disse:
"tudo bem ou bem fodido?". Eu lhe disse que não, que estava bem. Perguntou se eu
estava bem para fazer uma exploração; respondi que sim. Disse ´´ Eu quero que
você explore todo este terreno. Principalmente este pequeno vale que temos do
lado direito``. Pediu a Pacho que me acompanhasse, caso eu precisasse me
defender do inimigo, pois naquele momento eu só poderia usar uma mão. Depois de
haver caminhado uns 100 metros, fiquei atrás de uma moita, para observar o que
se chama ´´crista militar`` da colina que tínhamos á nossa frente. Pecha vê um
individuo parado na base da colina e diz: ´´veja onde há um homem``. Pensei que
se tratasse de um pastor, mas era muito cedo para que fosse um pastor. Já eram
mais o menos 6 horas da manhã. Pensei: pode ser um camponês. Mas o sol começa a
raiar e o homem começa a caminhar de um lugar para o outro: tudo parece indicar
que trata-se de um sentinela. Observo mais detalhadamente, e vejo que ao longo
do terreno começaram a aparecer mais e mais soldados, até que cobrem toda a
extensão da colina. O pequeno vala da direito não tinha saído para o fundo.
Acima havia uma casa de um camponês. O caminho da frente saia bem no meio da
tropa, e o da esquerda também. Voltei e disse a Che: ´´ouça-me, a coisa está
feia. Pude detectar o inimigo ali em cima e eles estão ao longo e ao pé da
colina``. Ele respondeu: ´´Bem, vamos nos meter nesta quebrada (N.T.: pequenos
vales e caminhos entre morros e colinas) da direita para ver se podemos passar
pelo menos o dia de hoje desapercebidos, ganharemos terreno para á noite quebrar
o cerco``. Essa quebrada era a que não tinha saída, prometia melhor camuflagem.
O lugar estava a uns 500 metros, e ali estava também o exercito. Che se prepara
com tudo, não deixou nada. Por fazer.Organizou a defesa, previu onde tínhamos
que ir, e se ocorresse uma debandada onde teríamos que nos reagrupar pela
primeira vez; e se não pudéssemos nos reagrupar ali, onde teríamos que nos
reagrupar estrategicamente, ou seja, para que o lugar teríamos que ir. Na saída
da quebrada preparou um emboscadinha com Pacho, Arturo e Willy, comandado por
Antônio. Pelo fundo da quebrada, no alto, colocou Pombo e Urbano. No lado
direito da quebrada, acima, havia uma árvore. Che pergunta se. Eu podia subir
lá, Disse-lhe que se me ajudassem eu poderia subir. Resolvido isso, disse que eu
não abandonasse essa posição, que dessa posição podíamos observar o exército e a
qualquer momento que nos atacasse poderia se tentar uma possível retirada por
ai. Mais ou menos ás 8 da manhã manda Inti e Dario para que ajudassem,
principalmente na observação e na posição, para que eu descansasse um pouco. Lá
pelas 11 da manhã vejo um movimento do exército, que vem descendo em direção a
nós e informo Che, porque podia falar com ele, já que se encontrava na mesma
posição, só que mais abaixo, na quebrada. O inimigo continua descendo. Num
determinado momento não posso continuar falando com ele, pois os soldados
poderiam ouvir. Sentimos necessidade de nos ocultarmos, os três, atrás da única
árvore, que havia ali. A árvore era muito pequena, o tronco estreito. Na altura
do meu pescoço havia uma forquilha. Então pensei: se fico aqui, Dario e Inti não
têm onde se esconder. E se um deles vier para cá, os dois restantes ficam
descobertos. Fizemos o seguinte: como Inti era mais baixinho que eu, ficou atrás
do tronco. Dario se sentou sobre meus pés, encostando nas pernas de Inti. Assim
ficamos os três e um poderia combater, ou seja, eu, por ser mais alto. Aniceto é
o flato - que com Willy achavam-se junto a Che - são enviados para auxiliar
Pombo e Urbano, para que estes também se juntassem ao Che, que continuava mais a
baixo da nossa posição. Quando se dirigiam para o local onde estavam Pombo e
Urbano, parece que Aniceto comete o erro de sair um pouco para o centro da
quebrada, para olhar para cima, pois se ouvia as vozes dos inimigos. Os soldados
o vêm, abrem fogo e o matam. Ai mesmo acontece o tiroteio, mais ou menos 13:30.
Não tínhamos visibilidade suficiente sobre os outros pontos em que estavam
nossos companheiros, por isso não pudemos ver seus movimentos nas horas
seguintes. Nós três que estávamos na árvore, éramos praticamente os únicos que
podíamos combater, devido á altura em que nos encontrávamos situados; os demais
estavam no leito da quebrada e não podiam ver o inimigo escondido lá em cima. E
de nós três, só um tinha condições de atirar que era eu por minha situação
favorável. Continuamos atirando até o final da tarde ,sem saber a sorte dos
companheiros que estavam lá em baixo. Tiramos de combate 11 soldados: cinco
mortos e seis feridos.... Houve um momento em que quase fomos descobertos lá em
cima: foi quando uma coluna de soldados veio em direção á nossa posição. Passam
bem próximos de nós, a uns 50 metros e vão lá para baixo, em direção a entrada
da quebrada, para fechar o cerco. Mas não nos ver, e seguem adiante. Continuo
disparando. Atiro bem metodicamente, aproveitando exatamente os instantes em que
eles disparam. (POR ESSE LADO OS SOLDADOS NÃO PODEM PASSAR SEM SOFRER MUITAS
BAIXAS, ATÉ QUE SE RETIRAM. N.da.R) Ao final da tarde, Pombo trata de vencer a
quebrada utilizando o mesmo caminho que havíamos feito; junto a ele estavam
Urbano e Flato. Avisamos os três para que não fizesse isso, pois o inimigo
estava logo adiante e poderia liquida-los. Eles esperam até as 8 da noite, hora
em que podíamos descer. Quando descemos Pombo me pergunta: onde está o Che?, e
eu lhe faço a mesma pergunta. Foi então que nos demos conta que CHE não
estava... . Fomos ao primeiro local combinado para nos encontramos: Che tão
pouco estava ali, mas estava ferido: encontramos sua mochila, muitas coisas
molhadas e pegadas de seus sapatos. Pensamos que podia ter ido ao segundo ponto
de reunião, mais longe. Para isso, precisávamos romper o cerco imediatamente e
assim fizemos naquele mesma noite... . Caminhamos pelo alto, para margear La
Higuera. Foi onde topamos com o inimigo. Houve combate e pudemos seguir adiante
sem maiores problemas. Nos refugiamos em uns arbustos, a 600 ou 700 metros de La
Higuera. Estávamos ali, no meio da lombada, escondidos, quando lá pelas 9:30 da
manhã ouvimos uma forte rajada de metralhadora. Mais ou menos ás 10:30, perto
das 11 da manhã, ouvimos outra rajada, seguida de mais alguns tiros. Mais tarde,
compreendera-nos que cada uma dessas descargas havia correspondido ao
assassinado de Willy, de Chino e de Che. Mas como estávamos longe de imaginar o
que na realidade estava acontecendo...``
Não se sabe Também se essa foi a forma da execução de " Che Cuevara"